Dundee, Escócia · 1813–1843

Robert Murray M'Cheyne

Um pastor que morreu aos 29 anos, seis anos e meio depois de assumir uma paróquia pobre em Dundee — e deixou à sua igreja um calendário para ler a Bíblia inteira em um ano. É o mesmo calendário que você abre aqui todos os dias.

Retrato a óleo de Robert Murray M'Cheyne com a Bíblia aberta
Pastor da St Peter's Church, Dundee · 1836–1843

A vida em datas

Vinte e nove anos, contados de perto

Quase tudo que se sabe dele vem do diário, das cartas e dos sermões que o amigo Andrew Bonar reuniu um ano depois da sua morte. As datas abaixo são as desse livro, conferidas com o arquivo dos seus papéis na Universidade de Edimburgo.

  1. 21 de maio de 1813

    Nasce em Edimburgo

    Filho caçula de um advogado de Edimburgo. Estuda na Royal High School e, aos 14 anos, entra na Universidade de Edimburgo — clássicos, poesia, música. Pelo próprio testemunho, era "desprovido de Deus".

  2. 8 de julho de 1831

    A morte do irmão David

    O irmão mais velho, a quem amava, morre depois de uma longa depressão — mas em paz com Deus. É o golpe que o acorda. Onze anos depois ele ainda escreveria: "Neste dia perdi meu amado irmão e comecei a procurar um Irmão que não pode morrer."

  3. Novembro de 1831

    Aluno de Thomas Chalmers

    Quatro meses após a morte de David, entra na Faculdade de Teologia. Chalmers o leva aos cortiços de Edimburgo, e ali nascem as duas paixões que nunca o largam: santidade pessoal e o cuidado com os perdidos.

    Pintura: Thomas Chalmers e jovens estudantes de teologia à porta de um cortiço numa viela de Edimburgo, um deles ajoelhado entregando pão a crianças
    Cowgate, Edimburgo, 1834. Chalmers levou os alunos aos cortiços; M’Cheyne escreveu no diário: “Por que eu sou como um estranho para os pobres da minha cidade natal?”
  4. Março de 1832

    A conversão

    Lendo The Sum of Saving Knowledge, um resumo da doutrina reformada. Ele mesmo o chamou de "a obra que forjou uma mudança salvífica em mim". A história dessa conversão ele contou num poema: Jeová Tsidkenu, "o Senhor, nossa justiça".

  5. 24 de novembro de 1836

    Pastor da St Peter’s, em Dundee

    Depois de um ano como assistente em Larbert e Dunipace, é ordenado pastor de uma igreja recém-construída numa paróquia pobre de quatro mil almas. Tem 23 anos. Sua primeira impressão da cidade: "entregue à idolatria e à dureza de coração".

  6. Março a novembro de 1839

    A Palestina — e o avivamento em casa

    Enviado pela Igreja da Escócia para investigar a situação dos judeus na Terra Santa, viaja oito meses com Andrew Bonar. Enquanto está fora, o pregador William C. Burns assume o púlpito, e em agosto o avivamento irrompe em St Peter’s: entre 600 e 700 pessoas procuram os pastores naquele outono.

    Pintura: dois ministros escoceses a cavalo nas colinas da Judeia, olhando Jerusalém ao longe, com um guia e um camelo
    A missão de inquérito à Palestina, 1839. Enquanto M’Cheyne e Bonar olhavam Jerusalém, o avivamento começava em Dundee.
  7. 30 de dezembro de 1842

    A carta e o calendário

    Escreve à congregação a carta "Daily Bread" (pão diário) com um calendário para ler toda a Bíblia em um ano — o Antigo Testamento uma vez, o Novo Testamento e os Salmos duas. É o plano que você abre aqui todos os dias.

    Pintura: escrivaninha com vela acesa, pena, tinteiro e Bíblia aberta, janela com neve ao fundo
    A mesa em Dundee, dezembro de 1842: a carta e o calendário que a igreja ainda abre todos os dias.
  8. 25 de março de 1843

    Morre aos 29 anos

    Contrai tifo visitando doentes da paróquia. Prega pela última vez em 12 de março; morre num sábado, treze dias depois. Entre seis e sete mil pessoas acompanham o enterro no pátio da própria igreja.

    Pintura: um jovem pastor de casaco preto caminhando sozinho por uma estrada de neve rumo a uma aldeia de pedra
    A última viagem: três semanas pregando em Deer e Ellon, no inverno de Aberdeenshire, semanas antes de morrer.
  9. 1844

    O livro que o fez conhecido

    Andrew Bonar publica Memoir and Remains — a biografia, o diário, as cartas e os sermões do amigo. Mais de vinte edições ainda no século XIX, e nunca saiu de catálogo.

Pintura: a igreja St Peter's de Dundee lotada à luz de velas numa noite de 1839, com o pastor no púlpito ao fundo
St Peter's, Dundee, 1839. Uma paróquia de quatro mil almas; entre seiscentas e setecentas pessoas procuraram os pastores naquele outono.

Por que ele ainda é lido

“Beijei a rosa sem pensar no espinho.”

Foi assim que ele descreveu a própria adolescência: um rapaz de talento, apaixonado por poesia e pelos clássicos, sem nenhum pensamento sobre a morte. A rosa era o mundo. O espinho veio em julho de 1831, com a morte do irmão David — e, pela graça de Deus, com ele veio outra Rosa: Cristo, a “Rosa de Sarom”, como passou a chamá-lo nos sermões.

Dali em diante viveu com duas coisas sempre à vista: a preciosidade de Cristo e a brevidade da vida. Tinha tuberculose; sabia que o tempo seria curto. Em vez de encolher, isso lhe deu foco. “Não coloque seu coração nas flores deste mundo”, disse à congregação. “Viva mais perto de Cristo do que dos santos, para que, quando eles forem tomados de você, você ainda tenha a Ele para se apoiar.”

Não deixou livros. Deixou uma igreja avivada, cartas, um diário — e a frase que resume tudo: “A maior necessidade da minha igreja é a minha própria santidade.”

Pintura: dois jovens estudantes de teologia à mesa com livros e uma Bíblia aberta, num quarto de Edimburgo
Edimburgo, 1834: M’Cheyne e Bonar estudavam, oravam e evangelizavam juntos.

Os três amigos

Sem Andrew Bonar, ninguém saberia quem ele foi

Na faculdade, M'Cheyne, Andrew Bonar e Alexander Somerville estudavam, oravam e evangelizavam juntos. Bonar, pastor em Collace, a poucos quilômetros de Dundee, foi quem viajou com ele à Palestina em 1839 — e quem, um ano depois da morte do amigo, publicou o Memoir and Remains. “Não houve um amigo que eu amei como ele”, escreveu.

O livro atravessou mais de vinte edições ainda no século XIX. Foi lendo esse livro que Spurgeon, Stott, Carson e Piper chegaram a M'Cheyne — e é por causa dele que você está lendo esta página.

Dundee · 30 de dezembro de 1842

Pão diário: a carta que virou calendário

“Meu querido rebanho,”

Três meses antes de morrer, ele escreveu à congregação. Junto da carta ia um calendário: quatro capítulos por dia, dois para o culto em família e dois para a devoção pessoal. Em um ano, o Antigo Testamento inteiro, e o Novo Testamento com os Salmos duas vezes.

que toda a Bíblia fosse lida por vocês em um ano, e que todos estivessem se alimentando da mesma porção do pasto verde ao mesmo tempo.

Ele não era ingênuo sobre planos de leitura. No prefácio, antes de listar as vantagens, listou os perigos — e avisou: “meu desejo não é lhes armar um laço, mas ser um ajudador da sua alegria”.

Ler a carta inteira

Pintura: uma família de tecelões de Dundee reunida à mesa à luz da lareira, o pai lendo a Bíblia em voz alta
Dois capítulos para o culto em família, dois a sós. Era assim que ele queria a casa inteira na mesma porção.

Os perigos, segundo ele

  • Formalidade — ler para cumprir tabela, sem o coração.
  • Justiça própria — achar-se melhor por ter lido.
  • Leitura descuidada — correr os olhos sem entender.
  • Um jugo pesado demais — para quem não consegue acompanhar.

As vantagens, segundo ele

  • A Bíblia inteira é lida, em ordem, no espaço de um ano.
  • Não se perde tempo escolhendo o que ler hoje.
  • Os pais têm um assunto certo para conversar com os filhos.
  • O pastor sabe em que parte do pasto o rebanho está se alimentando.
  • O laço de amor e unidade entre os irmãos se fortalece.

Como o calendário funciona, na prática →

Gravura de perfil de Robert Murray M'Cheyne, século XIX
Gravura de época · domínio público

Nas palavras dele

Ele não escreveu livros. Escreveu frases que ficaram.

Cada uma abaixo tem a fonte ao lado. Se você encontrar uma frase de M'Cheyne circulando sem fonte, desconfie — muitas não são dele.

  • A maior necessidade da minha igreja é a minha própria santidade.

    Carta, citada em Bonar, Memoir and Remains
  • Aprenda muito sobre o Senhor Jesus. Para cada vez que olhar para si mesmo, olhe dez vezes para Cristo.

    Carta a um jovem crente, Memoir and Remains
  • Que planta pode ficar sem água e não murchar?

    Sobre deixar de ler a Escritura — Bonar, Memoir and Remains
  • Levantei cedo para buscar a Deus e encontrei Aquele a quem a minha alma ama. Quem não gostaria de levantar cedo para encontrar tal companhia?

    Diário, Memoir and Remains
  • Eu amo a Palavra de Deus e a acho o alimento mais doce para a minha alma.

    Carta a Horatius Bonar, 1842
  • Um ministro santo é uma arma terrível nas mãos de Deus.

    Carta a um amigo pastor — citada por C. H. Spurgeon em Lectures to My Students

Cento e oitenta anos depois

Quem aponta para M'Cheyne hoje

Não é um plano de nicho. Alguns dos nomes mais lidos do mundo evangélico chegaram ao calendário de Dundee — e disseram por quê.

  • Charles H. Spurgeon

    Sobre o Memoir de Bonar

    Este é um dos melhores e mais proveitosos volumes já publicados. As memórias de um homem assim deveriam estar nas mãos de todo cristão — e certamente de todo pregador.

    Spurgeon também citou M’Cheyne aos seus alunos, em Lectures to My Students ("O autoexame do ministro").

  • John Stott

    Seguiu o calendário por décadas

    Nada me ajudou mais a obter uma visão de conjunto da Bíblia — e, assim, do plano redentor de Deus.

    Stott conheceu o calendário por Martyn Lloyd-Jones. Entrevista ao C. S. Lewis Institute.

  • D. A. Carson

    For the Love of God

    Escreveu dois volumes de devocionais diários que seguem exatamente a ordem de leitura de M’Cheyne — um comentário para cada dia do calendário.

    Crossway, 1998 e 1999.

  • John Piper

    Ele beijou a rosa e sentiu o espinho

    Dedicou a M’Cheyne a biografia da Conferência para Pastores de 2011: "Talvez, de todos os jovens santos, ele seja o menos provável de ser lembrado. E aqui estamos, 168 anos depois."

    Desiring God, 1º de fevereiro de 2011. Tradução em português: O Estandarte de Cristo, 2015.

A porção de hoje já está posta.

O mesmo calendário, os mesmos quatro capítulos que a igreja de Dundee abriu em 1843 — e que alguém, em algum lugar, está lendo agora.

Grátis. Sem cadastro. Cerca de 20 minutos.

Fontes desta página