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Como fazer o culto doméstico

Quinze minutos, uma Bíblia aberta e a família em volta da mesa. Um roteiro para começar hoje à noite, e para ainda estar fazendo em março.

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Pintura: à luz de vela, um pai lê a Bíblia em voz alta à mesa, enquanto a mãe, com o bebê no colo, e três crianças escutam
Casa de um tecelão escocês, inverno de 1843: o pai lê, a família escuta.

São nove da noite. A louça está na pia, um filho está no celular e o outro reclama da tarefa de matemática. É nessa hora, e não num domingo perfeito, que o culto doméstico acontece ou fica para amanhã.

Numa transmissão de outubro de 2021, o Pr. Jairo Carvalho, da Igreja Marcas do Evangelho, disse que “a família do crente deveria ser um lugar de banquete”. E descreveu o contrário: a casa em que cada filho tem a sua televisão, o seu celular, o seu tablet, e cada um vive num mundo longe dos outros. O culto doméstico são quinze minutos por dia em que esses mundos sentam à mesma mesa.

O que é o culto doméstico

É a família reunida em casa para ler a Bíblia, conversar sobre o que leu e orar. Às vezes tem um hino. Não tem sermão, e não precisa ter.

A ideia é mais velha que qualquer igreja do Brasil. Moisés já mandava os pais falarem da Palavra dentro de casa:

“E as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.”

Deuteronômio 6.7

Em 1647, a Igreja da Escócia aprovou um diretório para o culto familiar. Ele pedia que as famílias se reunissem de manhã e à noite para orar, louvar e ler as Escrituras, com perguntas feitas “de modo simples”. Quase dois séculos depois, Robert Murray McCheyne era pastor dessa mesma igreja, em Dundee, e a carta que acompanhava o seu calendário mostra que as famílias dele já faziam culto em casa. O que ele queria era um culto que ensinasse mais:

“A simples leitura do capítulo, muitas vezes, é como água derramada no chão.”

Robert Murray McCheyne, 1842

Um roteiro de 15 minutos

1. Use uma hora que já existe

Não invente um horário. Prenda o culto em alguma coisa que a família já faz todo dia: o fim do jantar, o café da manhã, a hora de pôr as crianças na cama. Horário novo costuma morrer na segunda semana. Hábito preso a outro hábito dura.

2. Leia antes, sozinho

McCheyne pedia isto ao chefe da família: ler antes o capítulo do dia e marcar “dois ou três dos versículos mais notáveis”, sobre os quais pudesse parar e fazer algumas perguntas simples. Cinco minutos no ônibus ou no intervalo do almoço resolvem. Quem chega à mesa sem ter lido acaba lendo por obrigação, e a família percebe.

3. Leia em voz alta

No plano McCheyne, as duas primeiras leituras de cada dia são as da família. No dia 1º de janeiro, por exemplo, são Gênesis 1 e Mateus 1: a criação e a genealogia de Jesus.

Revezem a leitura. Criança que já lê gosta de ler um trecho, e adolescente presta mais atenção quando a voz é dele. Se os dois capítulos forem longos demais para a sua mesa, leia um e guarde o outro para a leitura pessoal.

4. Pergunte, não pregue

Este é o coração do culto. McCheyne queria que “o sentido e a aplicação sejam extraídos por perguntas e respostas simples”. Quatro perguntas dão conta de quase qualquer capítulo:

  • O que aconteceu aqui? Quem estava lá?
  • O que esse texto mostra sobre Deus?
  • Tem alguma ordem, promessa ou alerta?
  • O que isso muda amanhã, na escola, no trabalho, aqui em casa?

Uma resposta curta do filho de seis anos vale mais que dez minutos de explicação do pai. Quando a Lei foi lida para o povo na volta do exílio, os levitas iam “dando explicações e declarações” para que “todos compreendessem o que estava sendo lido” (Neemias 8.8). O objetivo é esse: que todos entendam, e não que o pai fale bonito.

5. Orem, cada um uma frase

Oração comprida de uma pessoa só cansa as outras. Cada um ora uma frase: um agradecimento, um pedido. Pela prova de amanhã, pela avó que está internada, pelo emprego do pai. Quem conduz fecha.

6. Cantem, se der

Um hino da Harpa, um louvor que todos sabem de cor. McCheyne sugeria cantar três versos dos Salmos em cada culto doméstico: assim, em um ano, a família cantava o saltério inteiro.

Um exemplo, do começo ao fim

Primeiro de janeiro, depois do jantar. O pai lê Gênesis 1. A filha de dez anos lê Mateus 1 a partir do versículo 18, o nascimento de Jesus; a lista de nomes do começo do capítulo fica para quem quiser ler depois.

A pergunta da noite: o que Deus disse depois de cada coisa que criou? Alguém lembra: que era bom. E depois de criar o homem? “E Deus observou tudo o que havia realizado, e eis que era muito bom” (Gênesis 1.31).

Cada um agradece por uma coisa que Deus fez. Um hino. Boa noite. Deu doze minutos.

Quem conduz

Em geral, o pai. É o que a carta de McCheyne supõe quando fala do “chefe da família”, e é a ordem que Paulo dá aos pais:

“E vocês, pais, não provoquem seus filhos à ira, mas criem-nos na disciplina e na admoestação do Senhor.”

Efésios 6.4

Mas o culto doméstico não espera a família ideal. Se o marido ainda não é crente, a mãe reúne os filhos. Se vocês acabaram de casar, é um culto de dois. Se você mora sozinho, a sua leitura pessoal já é o começo, e a mesa pode receber um irmão da igreja uma vez por semana.

O que ler nos dias difíceis

Nem todo capítulo cabe numa mesa com crianças de cinco anos. As leis sobre impureza de Levítico 15 caem em 11 de abril; o crime de Juízes 19, em 5 de agosto. Os dois estão nas leituras da família.

McCheyne previu isso. Nas instruções do calendário, ele diz que, quando o capítulo da família for “mais adequado para a leitura em secreto”, o chefe da família pode trocar: o capítulo pessoal vai para a mesa, e o da família fica para cada um ler sozinho. Nesses dois dias, o Salmo do dia resolve.

Para os pequenos, há mais ideias no guia de devocional com crianças.

Três jeitos de matar o culto doméstico

Transformar em sermão. O pai fala vinte minutos, os filhos contam as rachaduras do teto. Pergunta curta segura mais atenção do que explicação longa.

Transformar em tribunal. O culto não é a hora de acertar as contas da semana. “Não provoquem seus filhos à ira” vale também às nove da noite. Se alguém precisa ser corrigido, faça em outra hora, a sós.

Depender de vontade. Culto que só acontece quando todos estão animados acontece três vezes por ano.

Quando não dá

Vai ter noite em que ninguém tem cabeça para nada. Nessa noite, leia um versículo e ore uma frase. É pouco, e conta.

E vai ter semana perdida. Não recomece do zero nem tente pôr os capítulos em dia: volte na data de hoje. O guia como voltar a ler a Bíblia trata disso.

A mesa e o caminho

Moisés falou em quatro momentos: sentado em casa, andando pelo caminho, ao deitar e ao levantar. O culto doméstico ocupa só o primeiro. Os outros três são as conversas que ele deixa começadas, e é nelas que os filhos descobrem se aquilo era de verdade.

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